Entrelinhas do Porvir: Carolina Maria de Jesus e o Sonho dos Serviços na
Encruzilhada Brasileira
Chegado o início do ano, também conhecido como pós-Carnaval, retomamos
nossas atividades na esperança do próximo celeiro de bambas e festas que virá. No
entanto, é justo e necessário retomar e discutir aquilo que aconteceu nestes majestosos
dias em que as grandes metrópoles e comunidades de menor porte se juntaram para
promover a farra e o prazer.
O Carnaval, em si, é amplamente discutido na economia sob o enfoque dos custos
e lucros gerados pelos gastos em consumo dos foliões e daqueles que buscam empreender
nas ruas e bares, vendendo desde bebidas alcoólicas até distintos adereços para se
fantasiar. Entretanto, um dos maiores fenômenos da festa se encontra nos sambódromos
espalhados pelo país, constituindo-se como parte fundamental e pensante das capitais do
Amapá, do Amazonas, de São Paulo e até mesmo em desfiles de menor porte, como os
que acontecem em Goiás com a participação de apenas três escolas de samba.
No epicentro da mídia nacional encontra-se a Marquês de Sapucaí, e nela está
proposto um possível debate que há de vir na academia econômica brasileira e
internacional.
Sob o comando do carnavalesco Edson Pereira, a tradicional Unidos da Tijuca
desfilou na segunda-feira de Carnaval (16/02) com um enredo focado em Carolina Maria
de Jesus, escritora negra e favelada que, no início do século XX, ganhou grande relevância
e pode ser relembrada por suas obras, nas quais denunciava a fome e as condições vividas
pelas classes marginalizadas. Um retrato cruel e visceral da realidade que o país
proporcionava a esses grupos, mas que, ainda assim, encontravam espaço para se
expressar e sonhar. Em defesa dos iletrados diante de uma sociedade racista, um grito
educado de resistência, capaz de enfrentar as encruzilhadas à sua frente.
Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO
Mas a pergunta que paira no ar é: como podemos participar desta atividade crítica,
cultural e social dentro do desfile da Tijuca sobre uma personagem tão importante para a
nossa literatura? Cabe ao papel do pensador criar estes laços. E foi possível, através de
uma simples sinapse, graças ao grupo Desajuste que me recomendou o podcast com a
participação de Dani Rodrik no "Capitalisn’t" acerca de seu novo livro: Shared Prosperity
in a Fractured World. Nele, está contida uma defesa intransigente de um novo modelo de
desenvolvimento, confrontando todo o pensamento construído ao longo de sua carreira
sobre os processos de manufatura e industrialização, principalmente pensando nos países
subdesenvolvidos.
A conexão entre os dois autores cabe sob a segunda alegoria da escola no
Carnaval, chamada "Despertando Escritora na Pauliceia – Desvarios nas Entrelinhas
Domésticas". Edson Pereira encontrou ali, em Carolina, a representação de uma São
Paulo que demarcava a posição social e laboral da mulher negra: o trabalho doméstico, o
ofício de limpar, cuidar e cozinhar seria o destino reservado a essas mulheres. Nesta
segunda alegoria, nos guarda-chuvas dos foliões, estão contidas essas mesmas profissões,
demarcando a realidade cruel vivida no processo de intensificação da urbanização
brasileira, marcada por dificuldades diante do frágil e insensível projeto pós-abolição.
Esta imagem dialoga de forma bastante provocativa com a tese que Rodrik
promove em seu livro. De forma distinta, Rodrik afirma que o declínio da manufatura, o
processo de automação e a manutenção do poder de uma classe média passam pelo setor
de serviços na economia. Para ele, a crise dos bons empregos nos regimes democráticos
ocidentais causa crises políticas, perpetua debates nacionalistas e permite a emergência
de novos governos autoritários ao redor do mundo. Nisto está contida a necessidade da
criação de melhores empregos, que possam aumentar a produtividade e criar valor social
através de inovações organizacionais e tecnológicas, e, para isso, seria preciso o enfoque
no setor de serviços. A queda nos empregos de manufatura dificilmente será revertida a
uma tendência de amplo crescimento; o investimento governamental nestas pautas, para
Rodrik, se encontra como anticíclico diante da tendência contemporânea.
Mas o problema não está contido nos ofertadores de serviços como
desenvolvedores de software ou grandes gerentes administrativos. A grande maioria dos
empregos está, e, segundo ele, permanecerá, nos serviços pessoais, nos cuidados e nos
vendedores. Para isso, é preciso melhorar a produtividade nestes empregos que, hoje,
estão longe da academia e das faculdades, principalmente com a probabilidade de
aumento da crise previdenciária. Empregos de cuidados domiciliares (home health) e
cuidados pessoais devem explodir exponencialmente.
No entanto, a pergunta que o desfile da Tijuca nos obriga a fazer é: produtividade
para quem? Reconhecida por quem? Carolina era imensamente produtiva, escreveu
diários, romances, peças, poesias, canções, e ainda assim foi silenciada. O mercado
editorial queria dela apenas o "Quarto de Despejo", a miséria vendável, e não "A
Felizarda", o romance que teve seu título e conteúdo mutilados. Há, portanto, uma
distinção fundamental entre "produtividade econômica" (aquela que o mercado reconhece e remunera) e "produtividade social" (o valor do trabalho para a comunidade, para a
história, para a dignidade de quem o realiza). Rodrik flerta com essa ideia ao falar em
"justiça contributiva", mas não a desenvolve para contextos pós-coloniais como o
brasileiro.
São exatamente essas profissões que a alegoria mostra nos "vãos, vagas e
escadarias", Carolina "entre os afazeres domésticos" e o "sobe-e-desce" que "ilustra a
correria do cotidiano". Rodrik está dizendo: esse é o futuro do trabalho. O desfile
responde: e sempre foi o presente de mulheres como Carolina.
A ilustração da problemática está para o brasileiro muito mais fácil de observar,
está na nossa história, está na Marquês de Sapucaí. "Os funcionários são majoritariamente
mulheres e desproporcionalmente pessoas de cor. Trabalhadores de cuidado de longa
duração são tipicamente tratados como executores de tarefas de baixa qualificação e não
são vistos como 'membros reais da equipe de cuidado'." Rodrik compreende a situação
vivida por essas pessoas, porém esbarra em laços sociais muito mais aprofundados do que
aqueles vistos pela lente ocidental, regida pelo eurocentrismo e condicionada a sociedades
mais igualitárias em indicadores. A possibilidade de aumento de produtividade, auxiliada
por uma desejada reordenação de valores para criação de empregos com dignidade, debate
já promovido por Amit Bhaduri em sua obra sobre o desenvolvimento na Índia, encontra
um obstáculo específico no caso brasileiro.
A tecnologia, para Rodrik, é parte da solução, ele cita o exemplo da Finlândia,
onde cuidadores de idosos foram capacitados com ferramentas digitais que ampliaram
sua autonomia. Mas o desfile da Tijuca apresenta uma visão mais ambígua da tecnologia:
o rádio é espaço de realização do sonho de Carolina; a máquina de impressão, na quarta
alegoria, é o "devorador de sonhos" que a silencia; o jornal, inicialmente sagrado, tornase instrumento de apagamento. A questão que fica é: a tecnologia, por si só, resolve o
problema do reconhecimento, ou pode apenas modernizar a exploração, dando uma
roupagem nova à velha hierarquia racial?
Esse obstáculo chama-se Estado. Rodrik atribui ao Estado um papel central na
promoção de boas políticas para serviços. Mas o desfile mostra duas faces do Estado
brasileiro que precisam ser enfrentadas: o Estado violador (que prende e espanca Carolina
por portar um livro, que mantém a "rádio patrulha" como presença aterrorizante na favela)
e o Estado ausente (que não regula o mercado editorial explorador, que abandona o
Canindé à condição de "quarto de despejo"). Que tipo de Estado é necessário para
implementar as políticas de Rodrik no Brasil? Antes de políticas de produtividade, é
preciso um Estado que peça desculpas, que reconheça dívidas históricas, que ativamente
repare desigualdades seculares.
A "justiça contributiva", a criação de oportunidades para ganhar o reconhecimento
social e a estima que acompanham a produção do que outros necessitam e valorizam, está
constantemente sendo interferida pela situação vivida pelas faxineiras e pela opressão
sofrida nas casas dos "patrões". O conflito entre o poder de barganha do trabalho que
sustenta e o trabalho que é anseado pelo autor é, em certo ponto, contraditório.
A Unidos da Tijuca mostra que, para Carolina, o trabalho doméstico não era
apenas uma ocupação, mas uma "cicatriz na alma" e um reflexo de um Brasil que ainda
mantém "resquícios do período escravocrata". Enquanto Rodrik foca na produtividade
técnica, a narrativa carnavalesca nos lembra que essas profissões são marcadas pelo
racismo estrutural e pela desvalorização histórica do corpo negro.
E a resposta de Carolina estava distante dos aplicativos e da produção em alta
escala. A resposta estava nos livros, na educação, no conhecimento que Carolina
conseguiu extrair das bibliotecas dos patrões enquanto limpava o pó das escrivaninhas, e
pela qual foi punida por ousar saber demais. Em uma sociedade como a brasileira, apenas
a necessidade de treinamento, como defendida por Rodrik, esbarra nas amarras sociais e
nos estigmas com que a sociedade brasileira ainda convive no século XXI. O cativeiro se
estende para distintas alas, e a economia do cuidado se torna uma cruz do calvário
cotidiano herdada pela negritude.
Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO
O desfile termina, porém, com uma virada: a quinta alegoria, "Academia Carolina
de Letras", mostra Carolina imortal, livre do lenço, lendo um livro em que a própria escola
escreveu seu final. A "Marcha das Carolinas" na ala 25 não traja fantasia, carrega cartazes,
representa a luta coletiva. Aqui, o desfile aponta para uma dimensão que Rodrik menciona
apenas de passagem: a organização popular, o protagonismo coletivo. A "justiça
contributiva" não pode ser apenas concedida pelo Estado ou pelo mercado, ela precisa ser
conquistada, escrita, clamada nas avenidas. Como diz Conceição Evaristo, é preciso
"escrevivência", uma escrita que não é apenas individual, mas testemunho e luta de uma
comunidade.
Além desse anseio pela busca tecnológica a todo instante, é preciso, assim como
o samba da Tijuca clama, "mudar essa história" e romper com a lógica da exploração.
Para que o sonhado service economic growth atinja o Brasil, é preciso, antes, rasgar o
contrato social estabelecido com a Lei Áurea, reconhecer que a abolição formal não
significou liberdade real, e que o trabalho doméstico ainda carrega as marcas da senzala.
O Brasil, com seu passado escravocrata e sua desigualdade abissal, funciona como
um "teste de estresse" para as teorias de Rodrik. Se suas propostas para a economia de
serviços funcionarem aqui, num país onde o trabalho doméstico ainda é associado à
subserviência, onde a pele determina quem serve e quem é servido, então podem
funcionar em qualquer lugar. Se não funcionarem, revelam os limites de uma teoria que
não leva suficientemente a sério a questão racial e a herança colonial.
O desfile da Unidos da Tijuca, ao colocar Carolina Maria de Jesus no centro da
avenida, não apenas homenageia uma escritora, convoca a economia a enxergar o que
sempre esteve ali, nas entrelinhas do expediente. E nos pergunta: será que o futuro do
trabalho, enfim, aprenderá a valorizar quem sempre sustentou o presente?
At.te,
Afonso Conceição Lima

