segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

Devaneios de Sacada

 O plano branco como fundo de vitórias

    Esta é a tentativa de criar um quadro dentro deste blog através de pequenos textos que escrevo com ideias que eu tenho ao passar do meu dia a dia de quando estou lendo ou quando estou simplesmente fumando na sacada de minha residência com meu único acompanhante, um par de cigarros "chesterfield" e um álbum de Chico. Inicio este recente projeto dedicando a uma das grandes botafoguenses da história, senhora Clarice Lispector, que com sua escrita esbelta e arrebatadora e seu jeito de falar único contendo os rastros da eterna imigração de nossa carência Severina vem com suas palavras que brilham como estrelas no céu me trazer momentos de inflexão sozinho.
    Me refiro a obra "Água Viva" que até a data do dia de hoje (03/02/2025) ainda não fora finalizada pela minha parte, sua leitura porém me traz seus constantes "cuspes" de pensamentos dados pela personagem principal que escreve uma carta a seu amante, com sua alma contaminada pelo espírito "free jazzistico" me levou a refletir quanto aos períodos de calmaria em tudo na vida, o trecho que me torna a escrever aqui é:

"Não quero perguntar por quê, pode-se perguntar sempre por que e sempre continuar sem resposta: será que consigo me entregar ao expectante silêncio que se segue a uma pergunta sem resposta? Embora adivinhe que em algum lugar ou em algum tempo existe a grande resposta para mim. E depois saberei como pintar e escrever, depois da estranha mas intima resposta. Ouve-me, ouve o silêncio. O que te falo nunca é o que te falo e sim outra coisa. Capta essa coisa que me escapa e no entanto vivo dela e estou à tona de brilhante escuridão. Um instante me leva insensivelmente a outro e o tema atemático vai se desenrolando sem plano mas geométrico como as figuras sucessivas num caleidoscópio" Pág,11.
 
    Além de vivermos na sociedade da ansiedade onde todos estão rodeados da constante necessidade de abrir seus aparelhos eletrônicos e se deparar com vídeos rápidos que possuem pouco conteúdo mas te prendem a atenção através de pequenas doses de dopamina, o futebol tem sido contaminado por essa febre, e não digo da existência da tal Kings League porque me parece mais uma tentativa de dentro do mecanismo do capital se regurgitar uma nova forma de manutenção do sistema como tal, desvinculando todo aparato institucional de seu caráter social e tendendo a mercadologia. Processo comum e já observado a mais de 200 anos, desde a aprovação das Leis dos Pobres na Inglaterra do Século XIX.
    Entretanto, não é sobre isso que venho falar aqui, mas sobre como o futebol mudou sua perspectiva de jogo, fugindo de sua imprevisibilidade para um jogo da eficiência e da repressão das características mais brasileiras que enraizamos neste esporte bretão, se Garrincha tivesse todas as respostas dadas em suas ações, seu transe de hipnotização não aconteceria, é através do silêncio do drible nas cadeiras de Zezé Moreira que o tema atemático se desenrola nas quatro linhas.


    Estevão driblando de um lado para o outro também torna o tema atemático a desenrolar no campo de futebol, portanto, os dizeres de Abel Ferreira em uma entrevista demonstra a falta de consciência do treineiro português em terras brasileiras, pois tenho certeza que aquele tal esporte realizado pela "nova academia" (risonha) não seria apreciado por Julinho Botelho, um jogo que funciona por bolas alçadas no segundo pau é de ofender o amante do futebol, pois se o "Depois do primeiro drible, tem que fazer coisas" fosse o ponto fundamental do esporte nem disputaria o campeonato nacional no ano de 2024. Voltando a Clarice, para mim escrever e driblar em campo possui a mesma verdade implícita.

"Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, poder-se-ia com alívio jogar a palavra fora. Mas aí cessa a analogia: a não palavra, ao morder a isca, incorporou-a. O que salva então é escrever distraidamente." Pág,17.
 
Att,
Afonso Conceição Lima 

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