quinta-feira, 12 de março de 2026

 Entrelinhas do Porvir: Carolina Maria de Jesus e o Sonho dos Serviços na Encruzilhada Brasileira

    Chegado o início do ano, também conhecido como pós-Carnaval, retomamos nossas atividades na esperança do próximo celeiro de bambas e festas que virá. No entanto, é justo e necessário retomar e discutir aquilo que aconteceu nestes majestosos dias em que as grandes metrópoles e comunidades de menor porte se juntaram para promover a farra e o prazer. 
    O Carnaval, em si, é amplamente discutido na economia sob o enfoque dos custos e lucros gerados pelos gastos em consumo dos foliões e daqueles que buscam empreender nas ruas e bares, vendendo desde bebidas alcoólicas até distintos adereços para se fantasiar. Entretanto, um dos maiores fenômenos da festa se encontra nos sambódromos espalhados pelo país, constituindo-se como parte fundamental e pensante das capitais do Amapá, do Amazonas, de São Paulo e até mesmo em desfiles de menor porte, como os que acontecem em Goiás com a participação de apenas três escolas de samba. 
    No epicentro da mídia nacional encontra-se a Marquês de Sapucaí, e nela está proposto um possível debate que há de vir na academia econômica brasileira e internacional. Sob o comando do carnavalesco Edson Pereira, a tradicional Unidos da Tijuca desfilou na segunda-feira de Carnaval (16/02) com um enredo focado em Carolina Maria de Jesus, escritora negra e favelada que, no início do século XX, ganhou grande relevância e pode ser relembrada por suas obras, nas quais denunciava a fome e as condições vividas pelas classes marginalizadas. Um retrato cruel e visceral da realidade que o país proporcionava a esses grupos, mas que, ainda assim, encontravam espaço para se expressar e sonhar. Em defesa dos iletrados diante de uma sociedade racista, um grito educado de resistência, capaz de enfrentar as encruzilhadas à sua frente. 

Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO
    
    Mas a pergunta que paira no ar é: como podemos participar desta atividade crítica, cultural e social dentro do desfile da Tijuca sobre uma personagem tão importante para a nossa literatura? Cabe ao papel do pensador criar estes laços. E foi possível, através de uma simples sinapse, graças ao grupo Desajuste que me recomendou o podcast com a participação de Dani Rodrik no "Capitalisn’t" acerca de seu novo livro: Shared Prosperity in a Fractured World. Nele, está contida uma defesa intransigente de um novo modelo de desenvolvimento, confrontando todo o pensamento construído ao longo de sua carreira sobre os processos de manufatura e industrialização, principalmente pensando nos países subdesenvolvidos. 
    A conexão entre os dois autores cabe sob a segunda alegoria da escola no Carnaval, chamada "Despertando Escritora na Pauliceia – Desvarios nas Entrelinhas Domésticas". Edson Pereira encontrou ali, em Carolina, a representação de uma São Paulo que demarcava a posição social e laboral da mulher negra: o trabalho doméstico, o ofício de limpar, cuidar e cozinhar seria o destino reservado a essas mulheres. Nesta segunda alegoria, nos guarda-chuvas dos foliões, estão contidas essas mesmas profissões, demarcando a realidade cruel vivida no processo de intensificação da urbanização brasileira, marcada por dificuldades diante do frágil e insensível projeto pós-abolição. 
    Esta imagem dialoga de forma bastante provocativa com a tese que Rodrik promove em seu livro. De forma distinta, Rodrik afirma que o declínio da manufatura, o processo de automação e a manutenção do poder de uma classe média passam pelo setor de serviços na economia. Para ele, a crise dos bons empregos nos regimes democráticos ocidentais causa crises políticas, perpetua debates nacionalistas e permite a emergência de novos governos autoritários ao redor do mundo. Nisto está contida a necessidade da criação de melhores empregos, que possam aumentar a produtividade e criar valor social através de inovações organizacionais e tecnológicas, e, para isso, seria preciso o enfoque no setor de serviços. A queda nos empregos de manufatura dificilmente será revertida a uma tendência de amplo crescimento; o investimento governamental nestas pautas, para Rodrik, se encontra como anticíclico diante da tendência contemporânea. 
    Mas o problema não está contido nos ofertadores de serviços como desenvolvedores de software ou grandes gerentes administrativos. A grande maioria dos empregos está, e, segundo ele, permanecerá, nos serviços pessoais, nos cuidados e nos vendedores. Para isso, é preciso melhorar a produtividade nestes empregos que, hoje, estão longe da academia e das faculdades, principalmente com a probabilidade de aumento da crise previdenciária. Empregos de cuidados domiciliares (home health) e cuidados pessoais devem explodir exponencialmente. 
    No entanto, a pergunta que o desfile da Tijuca nos obriga a fazer é: produtividade para quem? Reconhecida por quem? Carolina era imensamente produtiva, escreveu diários, romances, peças, poesias, canções, e ainda assim foi silenciada. O mercado editorial queria dela apenas o "Quarto de Despejo", a miséria vendável, e não "A Felizarda", o romance que teve seu título e conteúdo mutilados. Há, portanto, uma distinção fundamental entre "produtividade econômica" (aquela que o mercado reconhece e remunera) e "produtividade social" (o valor do trabalho para a comunidade, para a história, para a dignidade de quem o realiza). Rodrik flerta com essa ideia ao falar em "justiça contributiva", mas não a desenvolve para contextos pós-coloniais como o brasileiro. 
    São exatamente essas profissões que a alegoria mostra nos "vãos, vagas e escadarias", Carolina "entre os afazeres domésticos" e o "sobe-e-desce" que "ilustra a correria do cotidiano". Rodrik está dizendo: esse é o futuro do trabalho. O desfile responde: e sempre foi o presente de mulheres como Carolina. A ilustração da problemática está para o brasileiro muito mais fácil de observar, está na nossa história, está na Marquês de Sapucaí. "Os funcionários são majoritariamente mulheres e desproporcionalmente pessoas de cor. Trabalhadores de cuidado de longa duração são tipicamente tratados como executores de tarefas de baixa qualificação e não são vistos como 'membros reais da equipe de cuidado'." Rodrik compreende a situação vivida por essas pessoas, porém esbarra em laços sociais muito mais aprofundados do que aqueles vistos pela lente ocidental, regida pelo eurocentrismo e condicionada a sociedades mais igualitárias em indicadores. A possibilidade de aumento de produtividade, auxiliada por uma desejada reordenação de valores para criação de empregos com dignidade, debate já promovido por Amit Bhaduri em sua obra sobre o desenvolvimento na Índia, encontra um obstáculo específico no caso brasileiro. 
    A tecnologia, para Rodrik, é parte da solução, ele cita o exemplo da Finlândia, onde cuidadores de idosos foram capacitados com ferramentas digitais que ampliaram sua autonomia. Mas o desfile da Tijuca apresenta uma visão mais ambígua da tecnologia: o rádio é espaço de realização do sonho de Carolina; a máquina de impressão, na quarta alegoria, é o "devorador de sonhos" que a silencia; o jornal, inicialmente sagrado, tornase instrumento de apagamento. A questão que fica é: a tecnologia, por si só, resolve o problema do reconhecimento, ou pode apenas modernizar a exploração, dando uma roupagem nova à velha hierarquia racial? 
    Esse obstáculo chama-se Estado. Rodrik atribui ao Estado um papel central na promoção de boas políticas para serviços. Mas o desfile mostra duas faces do Estado brasileiro que precisam ser enfrentadas: o Estado violador (que prende e espanca Carolina por portar um livro, que mantém a "rádio patrulha" como presença aterrorizante na favela) e o Estado ausente (que não regula o mercado editorial explorador, que abandona o Canindé à condição de "quarto de despejo"). Que tipo de Estado é necessário para implementar as políticas de Rodrik no Brasil? Antes de políticas de produtividade, é preciso um Estado que peça desculpas, que reconheça dívidas históricas, que ativamente repare desigualdades seculares. 
    A "justiça contributiva", a criação de oportunidades para ganhar o reconhecimento social e a estima que acompanham a produção do que outros necessitam e valorizam, está constantemente sendo interferida pela situação vivida pelas faxineiras e pela opressão sofrida nas casas dos "patrões". O conflito entre o poder de barganha do trabalho que sustenta e o trabalho que é anseado pelo autor é, em certo ponto, contraditório. 
    A Unidos da Tijuca mostra que, para Carolina, o trabalho doméstico não era apenas uma ocupação, mas uma "cicatriz na alma" e um reflexo de um Brasil que ainda mantém "resquícios do período escravocrata". Enquanto Rodrik foca na produtividade técnica, a narrativa carnavalesca nos lembra que essas profissões são marcadas pelo racismo estrutural e pela desvalorização histórica do corpo negro. E a resposta de Carolina estava distante dos aplicativos e da produção em alta escala. A resposta estava nos livros, na educação, no conhecimento que Carolina conseguiu extrair das bibliotecas dos patrões enquanto limpava o pó das escrivaninhas, e pela qual foi punida por ousar saber demais. Em uma sociedade como a brasileira, apenas a necessidade de treinamento, como defendida por Rodrik, esbarra nas amarras sociais e nos estigmas com que a sociedade brasileira ainda convive no século XXI. O cativeiro se estende para distintas alas, e a economia do cuidado se torna uma cruz do calvário cotidiano herdada pela negritude.

Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO

    O desfile termina, porém, com uma virada: a quinta alegoria, "Academia Carolina de Letras", mostra Carolina imortal, livre do lenço, lendo um livro em que a própria escola escreveu seu final. A "Marcha das Carolinas" na ala 25 não traja fantasia, carrega cartazes, representa a luta coletiva. Aqui, o desfile aponta para uma dimensão que Rodrik menciona apenas de passagem: a organização popular, o protagonismo coletivo. A "justiça contributiva" não pode ser apenas concedida pelo Estado ou pelo mercado, ela precisa ser conquistada, escrita, clamada nas avenidas. Como diz Conceição Evaristo, é preciso "escrevivência", uma escrita que não é apenas individual, mas testemunho e luta de uma comunidade. Além desse anseio pela busca tecnológica a todo instante, é preciso, assim como o samba da Tijuca clama, "mudar essa história" e romper com a lógica da exploração. 
    Para que o sonhado service economic growth atinja o Brasil, é preciso, antes, rasgar o contrato social estabelecido com a Lei Áurea, reconhecer que a abolição formal não significou liberdade real, e que o trabalho doméstico ainda carrega as marcas da senzala.
    O Brasil, com seu passado escravocrata e sua desigualdade abissal, funciona como um "teste de estresse" para as teorias de Rodrik. Se suas propostas para a economia de serviços funcionarem aqui, num país onde o trabalho doméstico ainda é associado à subserviência, onde a pele determina quem serve e quem é servido, então podem funcionar em qualquer lugar. Se não funcionarem, revelam os limites de uma teoria que não leva suficientemente a sério a questão racial e a herança colonial. 
    O desfile da Unidos da Tijuca, ao colocar Carolina Maria de Jesus no centro da avenida, não apenas homenageia uma escritora, convoca a economia a enxergar o que sempre esteve ali, nas entrelinhas do expediente. E nos pergunta: será que o futuro do trabalho, enfim, aprenderá a valorizar quem sempre sustentou o presente? 

At.te,
Afonso Conceição Lima

quarta-feira, 16 de julho de 2025

Lourenço da Arábia


Brisa Moura na Ilha do Retiro

    Retorno a esta tentativa fúnebre de me manter ativo e pensamente, para que assim, as doenças de alzheimer não possam me atingir tão fortemente nos próximos anos. Além disso, corro em uma tentiva de regurjitar tudo aquilo que li e vi nos últimos tempos. Agraciado com o fim do período letivo, a docência pode me permitir algum tempo livro durante as tals chamadas férias escolares, e com às, me permiti assistir uma obra na calada da noite em meu telefone. O filme "A Noite do Espantalho", um filme musical cordelístico de Sérgio Ricardo - aquele mesmo que ficara famoso pelas trilhas sonoras das obras de Glauber Rocha - do ano de 1974 me arrebatou como uma flecha, ou talvez como uma peixeira esvoaçante para os mais místicos.
    Nesta obra, que fora escolhida como nosso representante para o Oscar de filme estrangeiro do ano não obteve grande sucesso na mídia tradicional, e não venho aqui discutir a obra e as temáticas e sub-temáticas em si neste meu distante, conteudista e enfadonho texto. A parte que me preocupa e que me chamou a atenção na obra fora a estética envolta de todo o cenário, que mesmo que as vestimentas, os sotaques e a pasaigem possam parecer repetitivos para um brasileiro em 2025, onde estamos acostumado e já de "saco cheio" de se escutar sobre a seca do sertão e de todo sofrimento do nordestino (onde grande parte das vezes é interpretado por um sudestino com um sotaque extremamente caricato), ainda carregam alguma lição importante para alguns músculos vivos da sociedade brasileira, e como de costume quero discuti-lo dentro da prática do esporte bretão, mas antes disso, um pequeno recap para completar embasamento do o quê quero discutir.

quinta-feira, 20 de março de 2025

Devaneios de Sacada

 Memórias de Infância

    Retorno ao meu papel branco que denominei este quadro, vivendo dentro deste blog que caminha entre o vivo e o morto. Volta aqui a escrever depois de um tempo onde fora dominado pelas forças da dopamina, estou tentando livrar delas gradualmente, até o momento podemos considerar ser um sucesso. Infelizmente pelas minhas obrigatoriedades de pesquisa na instituição em que atuo não pude finalizar a leitura do livro "Água Viva" de Clarice Lispector, mas novamente escrevo sobre pequenos fragmentos que esta obra me faz refletir. A bola da vez se trata desta simples frase:

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Existe outra alternativa?

 Uma diferente maneira de entender nosso esporte

    As acusações acerca do caso de Lucas Paquetá chocaram o mundo do futebol internacional, pois não é compreendido como um atleta profissional, com salários astronômicos possa se "vender" a casas de apostas por valores considerados tão baixos, a lógica do capital e do mercado se tornou inerente as instituições, porém o homem ainda tende a ter feedback negativo quando se encontra a uma ganância não explicada pela necessidade e falta, como contida no pensamento freudiano. Portanto, cabe a nós meros fantoches das forças do capital combatermos o discurso tatcherista de que "não há outra alternativa" (TNA) e criarmos consciência da situação e indo além, com a função de propor novos mundos.
   Foi contido no pensamento libertário durante muitas décadas que nossos sonhos de uma nova civilidade e de  distintas hierarquias (ou nenhumas) adviria dos povos originário ou de sociedades orientais da Ásia e África, porém, para o caso do esporte percebemos que estes não foram capazes de frear o avanço do pensamento mercadológico, e para isso, poderemos utilizar um caso bem específico dentro de nosso ocidente, o futebol gaélico e o papel da Gaelic Athletic Association (GAA) em defesa do amadorismo podem nos mostrar um diferente caminho.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

Devaneios de Sacada

 O plano branco como fundo de vitórias

    Esta é a tentativa de criar um quadro dentro deste blog através de pequenos textos que escrevo com ideias que eu tenho ao passar do meu dia a dia de quando estou lendo ou quando estou simplesmente fumando na sacada de minha residência com meu único acompanhante, um par de cigarros "chesterfield" e um álbum de Chico. Inicio este recente projeto dedicando a uma das grandes botafoguenses da história, senhora Clarice Lispector, que com sua escrita esbelta e arrebatadora e seu jeito de falar único contendo os rastros da eterna imigração de nossa carência Severina vem com suas palavras que brilham como estrelas no céu me trazer momentos de inflexão sozinho.

 Entrelinhas do Porvir: Carolina Maria de Jesus e o Sonho dos Serviços na Encruzilhada Brasileira      Chegado o início do ano, também conhe...