quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Existe outra alternativa?

 Uma diferente maneira de entender nosso esporte

    As acusações acerca do caso de Lucas Paquetá chocaram o mundo do futebol internacional, pois não é compreendido como um atleta profissional, com salários astronômicos possa se "vender" a casas de apostas por valores considerados tão baixos, a lógica do capital e do mercado se tornou inerente as instituições, porém o homem ainda tende a ter feedback negativo quando se encontra a uma ganância não explicada pela necessidade e falta, como contida no pensamento freudiano. Portanto, cabe a nós meros fantoches das forças do capital combatermos o discurso tatcherista de que "não há outra alternativa" (TNA) e criarmos consciência da situação e indo além, com a função de propor novos mundos.
   Foi contido no pensamento libertário durante muitas décadas que nossos sonhos de uma nova civilidade e de  distintas hierarquias (ou nenhumas) adviria dos povos originário ou de sociedades orientais da Ásia e África, porém, para o caso do esporte percebemos que estes não foram capazes de frear o avanço do pensamento mercadológico, e para isso, poderemos utilizar um caso bem específico dentro de nosso ocidente, o futebol gaélico e o papel da Gaelic Athletic Association (GAA) em defesa do amadorismo podem nos mostrar um diferente caminho.
   Fundada em 1884 por Michael Cusack, a GAA promove um forte papel dentro da sociedade irlandesa, através de sua intrínseca função de frente nacionalista e patriótica em meio a um contexto de extensas dificuldades e adversidades devido a força colonial britânica nas ilhas gaélicas ao seu redor. Os séculos de humilhação e fome foram capazes de formalizar instituições com papeis "rebeldes", fator este que eu cito que porém, a historiografia tende a ter uma discussão mais profunda sobre a força da GAA como motor inicial da rebelião. É discutido por diversos historiadores a ideia de que a GAA tenha sido simplesmente consumido pelos seus integrantes na época que eram militantes ativos, e  assim sendo, viam se sem maneiras de escapar formalmente da mobilização política ativa que eram realizadas no período. Para aqueles que quiserem entender mais do papel da GAA no começo do Século XX, recomendo ler o artigo "The GAA and revolutionary Irish politics in late nineteenth and early twentieth-century Ireland" por David Hassan e Andrew McGuine.
    Voltando ao ponto que pretendo destinar neste texto, todos sabemos que dentro de nosso querido futebol também temos distintos casos de clubes e federações tomando posições politicas e se rebelando ou se juntando ao zeitgeist (espírito da época), mas a interpretação que venho demonstrar seria sobre a luta contra a profissionalização do esporte em que a GAA lutou por mais de 100 anos. Para nós, a luta contra a profissionalização morreu junto a Carlito Rocha nos anos 30/40 e hoje é veemente defendido como uma forma de ascensão social das populações mais periféricas da sociedade brasileira. 
   Tendo a discordar deste ponto, pois mesmo sendo claro que a Irlanda possui um nível de desenvolvimento acima dos nossos padrões brasileiros, o esporte entra funcionalmente para operar dentro de nossos mais intrínsecos sentimentos, de amizade, camaradagem e de pertencimento, em que obviamente para os individualistas pouco importa, porém, estes são os mesmos que reclamam dos altos indicadores de corrupção, de golpes e de falta de educação do brasileiro, faltam para estes a compreensão de como o ensino e o esporte podem modificar na formação social do brasileiro a sua conduta e seu entendimento do real poder que possuem dentro de um espaço democrático em disputa. As políticas públicas avançadas na Irlanda nos tempos recentes, não advieram de uma situação fácil, se demonstravam frágil perante a seus vizinhos, entretanto, através da compreensão do povo unido observaram avanços dos padrões de vida disputados.
    Os indicadores de desigualdade social ainda são um dos temas mais debatidos na Irlanda, a concentração de riqueza em Dublin e nas classes mais elevadas é um debate recorrente e mesmo assim, os esportes geridos pela GAA não olham como forma de combater a desigualdade simplesmente profissionalizar o esporte, pois sabem que os resultados finais serão a propagação da disparidade e ganhos mínimos financeiros para grandes canais televisivos.

(1966, Galway GAA em seu período áureo de títulos e honrarias)

     A visão do esporte como profissão e rendimentos financeiros demonstram a clara tentativa de captura do mesmo pelo capital, que baseando nos textos do economista austríaco Karl Polanyi, a "mercadorização" e transformação do dinheiro, terra e do trabalho em mercadoria instaurou a sociedade do mercado como regente no mundo ocidental, e que dentro dela existe um mecanismo de "duplo-movimento" aonde as sociedades tentam combater através de instituições sociais e coletivas o avanço do individualismo metodológico e produtivo dentro dos aparatos mais humanos.
    Segundo o autor, desde a Lei dos Pobres na Inglaterra no Século XIX temos que conviver com "desembebimento" de nossos laços sociais, onde tudo que um dia já foi pertencido as construções sociais do povo foi transformado em rendimentos para grandes capitalistas, para isso criou-se o conceito de "embebimento" que seria o grau em que algumas agremiações estão inseridas na sociedade de mercado, um conceito que para mim é muito útil para entender o esporte como categoria política de estudo.
      Para podermos ir além da utilização de apenas um autor, também podemos utilizar do conceito de "territorialização" em Deleuze & Guatarri, no livro "Mil Platôs", aonde novamente o capital entra dentro de mercados diferentes dentro de um sociedade em sua maioria das vezes hierarquicamente estruturada em laços sociais e os modificando/"desterritorializando" para atender os desejos mais niilistas do crescimento do sistema capitalista como um todo. Dessa forma, podemos entender com o que houve de errado com o futebol e com o que o futebol gaélico tem combatido, a expansão da ganância já é conhecida, os lucros já foram expandidos e é questão de tempo para destruir toda formação natural já conhecida dentro de nosso esporte bretão. 
     Os conceitos acima citados já foram utilizados em estudos científicos, uma discussão sobre a criação de ligas como a Premier League e entre outros já aconteceu, para isso, recomendo a leitura do artigo "The Great Transformation of the English Game: Karl Polanyi and the Double Movement ‘Against Modern Football" de David M. Webber caso queiram se aprofundar ainda mais no tema. É demonstrado assim, que o nosso futebol fora "desterritorializado" e esteja em processo de "desembebimento" constante.
    Mas ainda existem escapatórias em diferentes alas, essas "linhas-de-luta" podem ser entendidas dentro dos autores citados nos parágrafos acimas de formas diferentes com um mesmo objetivo, parar com o avanço capitalista. Sonhar é possível e a GAA nos demonstra, mas é claro que ainda não é da maneira ideal, a preocupação com o avanço estrutural de Dublin comparado aos outros condados afetam o amadorismo institucionalizado, porém a mídia e o pensamento comum das organizações ainda são favoráveis a manutenção do esporte como ele é, as organizações ainda observam o esporte da maneira que ele foi construído corretamente, como uma forma de integração social e da criação de laços entre pessoas da mesma localidade e indo além, uma conexão nacional, através de uma nova linguagem que seria entendida por todos que tivessem acesso.
    Enfim, o esporte continua sendo um reflexo da fidalguia de nossa territorialidade em que vivemos, nos permitindo raciocinar e analisar nosso destino, servindo de lição para toda a esquerda e para todos os defensores do amadorismo, será que a "mercadorização" como combate da mesma seria o método ideal da esquerda? O futebol gaélico barrando o pagamento de salários, já não seria uma demonstração suficiente para tal praxis política? São dúvidas que eu tenho com o passar dos dias, enquanto na Irlanda filiados a GAA discutem o aumento das horas semanais de educação física de 1 hora para 3 horas nos colégios públicos, aqui discutimos a venda das associações desportivas a grandes grupos financeiros, preocupações diferentes e visões diferentes sobre a prática física.

"Ní neart go cur le chélie" (Não há força sem união)


Att,
Afonso Conceição Lima
    

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