quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

A memória permanecerá para os românticos

 Os simulacros e os dribles jamais pensados

   Escrevo este texto na madrugada de uma quinta-feira (02/01) como uma forma de homenagem e  tentativa de construção da memória do o que foi visto no ano de 2024, pois não há mundo mais improvável e mais desejado com o que ocorreu nesta temporada ao torcedor botafoguense. A realidade nunca se tornou tão tátil e a América nunca se rendeu tanto aos sonhos de Emmanuel Sodré e Flávio Ramos quanto agora, nenhuma das contas que foram ensinadas na aula de álgebra no colégio Alfredo Gomes os prepararam para o que aconteceria. 

    
   O estabelecido "quarteto fantástico" alvinegro atingiu feitos que para ídolos como Jairzinho, Garrincha e Túlio Maravilha foram parados pela da formação da realidade dos outros, nunca os sonhos e desejos alvinegros foram concluídos, apenas através desta união para além de especial, também possuidora de muito simbolismo terceiro-mundista latino-americano como observado pela nacionalidade dos personagens que realizaram tal feito.
    Para críticos do chamado "fair-play financeiro" gerado pelo atual representante do cargo de Carlito Rocha em espírito de General Severiano, John Textor, resta ler a crônica escrita por Fernando Horácio acerca do Botafogo de 1959:

"Inaugurando uma nova era para a politica financeira do futebol brasileiro, o Botafogo, há cerca de três anos, iniciou uma verdadeira revolução do nosso sistema profissional, comprando passes com preços considerados astronómicos e pagando salários imensos. Para muitos começou al uma época de inflação e que seria o suicídio do próprio clube. Mas o Botafogo provou ao contrário: venceu um campeonato, o de 1957, chegou às finais de outro, super- super de 58. e fez excelente campanha na Europa. Ao lado do êxito técnico veio o financeiro, cobrando ele as maiores taxas por jogo, dentro ou fora do Brasil. E entendendo que para se ganhar partidas e muito dinheiro, é preciso grandes jogadores, o Botafogo armou-se para 59."
 
    Poderia estar aqui em minha presença declamando simbologia ao gol de Luiz Henrique e a sua camisa mística 7, representante de tanta divindade e geist à respeito disso, porém, creio que este mérito já foi dado a outros autores Brasil a fora, cabe a mim falar de uma experiência que eu passei hoje à tarde assistindo a um filme numa tarde nublada em minha capital estadual. A solidão (e o recesso laboral) me permitiram abrir as plataformas de streaming diversas e me deparar com uma obra chamada de "Al doilea joc" de Corneliu Porumboiu que produzira um documentário esportivo de alta reflexão nestes momentos posteriores a grandes títulos e feitos.
     A obra retrata uma conversa que acontecera entre o pai, ex-árbitro romeno do mais belo esporte, com seu filho diretor desta obra, enquanto passa um dos jogos administrados pelo próprio pai, que para além das representações sócio-políticas que estavam percorrendo a partida (futuramente havia de ocorrer o fim do Governo de Nicolae Ceasusescu na Romênia), o confronto do chamado "Eternul Derby" entre o Steaua Bucuresti (time do exército romeno) contra o Dínamo Bucuresti (time da polícia secreta romena) ocorrida no ano de 1988 não possuia grandes atrativos de início, uma tempestade de neve impediria que um elenco de grandes jogadores romenos como Gheorghe Hagi desempenhasse o  mais rebuscado futebol naquele dia, porém a beleza não está na técnica dos atletas da idade de ouro do futebol do País com uma língua latina, tal qual a nossa, mas sim na dialética ocorrida na presença da figura paterna com sua cria.
    O confronto entre o romantismo que ansiava por poesias e significados em todos os detalhes da partida e da representação das imagens geradas pelo esporte era combatido por um um pai conformado com o fracasso contemporâneo do esporte amado em sua nação e de uma extensa crença ceticista a quantas pessoas estariam dispostas a reassistir aquele jogo. É constante ouvir de Adrian (Pai) que as imagens e o futebol são descartáveis e temporárias, que assim como o cinema, sua teleologia seja de funcionar mediante o seu consumo como mercadoria imediata e o esquecimento dos frutos advindos ocorra no mercado.
    Entretanto, aquela fita VHS com as imagens sem uma qualidade decente foram capaz de convencer Adrian ao decorrer da partida, a se render e apreciar cada segundo da partida jogada, tornando os minutos de silêncio na obra o suficiente para demonstrar o que acontecerá na cabeça do pai, seus suspiros de elogios aos passes dos atletas o levou a apreciar aquela partida e nos torna a refletir acerca da força do esporte na construção de imagens. Segundo Baudrillard, a realidade deixou de existir e hoje vivemos a épocas de simulações, sendo o cinema um agente que pode organizar a ordem em meio ao caos de signos/simulacros da vida utilizadas para o terror mental na sociedade, é preciso que para corrigir a sociedade da catástrofe reproduzir o real, sendo assim

“o cinema nas suas tentativas atuais aproxima-se cada vez mais, e com cada vez mais perfeição, do real absoluto, na sua banalidade, na sua veracidade, na sua evidência nua, no seu aborrecimento e, ao mesmo tempo, na sua presunção, na sua pretensão de ser o real, o imediato.” (1991, p.64).
 
    Corneliu (Filho), foi capaz de compreender o futebol como cinema da mesma forma que fora dita pelo seu pai, porém indo além, a reprodução do esporte como fenômeno social tem que ser reproduzido como combate a mecanização das relações sociais, são exemplos como o "quarteto mágico" alvinegro que tornam o futebol vivo para além de extensas horas de Premier League aos olhos e ouvidos de um cidadão brasileiro. Pode-se  sonhar e imaginar o futebol da forma que nós mesmos desenhamos, nossa visão de futebol não é formada pelos lances de Kocsis, George Best ou o WM de Herbert Charpman, mas sim pela elegância de Didi, a braveza de Paulo Valentim na final do Carioca de 1957 e a habilidade de Luiz Henrique (que me recordam a lendária história de Zezé Moreira, Garrincha e suas cadeiras).
     Creio que seja possível resgatar textos de Alain Badiou para complementarmos o objetivo desta pequena crônica, e nos utilizarmos de sua visão de amor para com o esporte, penso que da mesma forma que um amor resulta na criação de um novo indivíduo (DOIS) com uma nova perspectiva e criação de novas possibilidades de entender o mundo, o futebol de nacionalidade brasileira permite o florescimento de novas possibilidades. Através de velhos dribles no futebol e antigas paqueras no amor, olhamos para a mesma meta sob novos olhares e construindo um novo indivíduo, o décimo segundo ser (DOZE)
    Para que assim, da mesma forma que Adrian se rendeu a magia do futebol local e cedeu seu ceticismo quanto ao consumo temporário do futebol como cinema, possamos ceder aos nossos intemperismos mentais e conseguiremos observar nossa maior arte desempenhada por todas as classes como eterna e combatente aos desejos daqueles que nos tentam dominar.

Att,
Afonso Conceição Lima


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